Madrugada, e a Senhora Solidão não conseguira adormecer.
- Não sabes o que queres - teria sido a leitura que o Senhor Desejo fizera da Senhora Solidão!
Bem, pensara ela, os homens quando não satisfeitos à sua condição, determinam a pontuação
de uma mulher, objeto de sua sensualidade, fantasia e satisfação.
Ela teria um valor real, ocupando todo um espaço emocional e sexual do Senhor Desejo?...ainda
não sabia, talvez um dia...
Esperava...continuaria pacientemente a esperar, numa espera prazeirosa, por puro prazer, que
algo bom duradouro fosse construído, se libertar do medo de não amar (...pior do que o medo
de não ser amada !...) mas até alí era presentimento, apenas um toque de intuição...se os
momentos de abandono se sucediam era porque algo cego, urgente, inapelável tomava-lhe
seu centro de mulher, a deixando louca de tesão, sobretudo quando Ele a tocava...ela sentia
tantas saudades...
---,poderia amá-lo, fazendo-o cair numa longa e colorida onda de gozo...gostaria..., mas
não como uma mulher cedida, fácil, ele a queria , ela precisava-o seguro, romântico, cúmplice
e intenso...
Para que ele pudesse não apenas dizer, mas sentir sem medo- saudades dela- palpitante e
feliz, viver sobre si mesmo...
Com estes pensamentos...despira-se, no quarto sob a cama, seu corpo pesava-lhe, fechava
os olhos e uma sensação de desejo...olhou o homem, objeto de sua paixão, e mesmo sem vê-lo,
sentia o sangue atravessar grosso por suas veias, como deve sentir uma loba quando no cio...,
estaria abrindo passagem para a luxúria?
Fechou a luz e apertou os cílios entreabrindo os lábios úmidos, como uma fêmea bêbada,
a frescura da noite viera-lhe visitar, acariciou o sensível do corpo quente em busca de um
domador...A boca dele a beijara, acariciara-lhe os seios bonitos e macios, olhou-o sem vê-lo,
apenas a pensar...respirava , agora, sufocada pelo desejo- durante o dia- pensamentos
sensuais- seu corpo tão puro que virava emoção, respirava tão mal como se o ar estivesse -lhe
fazendo mal...
Naquele quadro tornou-se dolorosa e pesada, sem saciez ...essa falta resultou em silêncio e
solidão, a fragilidade avançando, sentiu seu rosto molhado, sua sede inundou seu corpo d'água,
grossas lágrimas...
Por Deus, estaria , quem sabe, fazendo disto mais do que desejo - seria amor?
Chorou livremente...como se este fosse o remédio.
Voltou às suas antigas proporções...o vento uivou além das janelas dos arranha-céus,
embalando-a a um sono sem aviso.
Fátima Pessoa